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DANILO LOBO
29-08-2005
Na sexta-feira, 28 de agosto de 2005, foi realizado um ato público, no auditório 2 Candangos da Universidade de Brasília, em homenagem póstuma ao Prof. Danilo Lobo, a exatos trinta dias de seu falecimento.
Acontecia um simpósio de literatura de que participavam colegas do Instituto de Letras e muitos de seus ex-alunos.
A morte de Danilo foi muito dolorosa e triste. Há anos que ele fazia hemodiálise.
Estávamos ensaiando meus textos de Perversosem que ia protagonizar o espetáculo. Toda a fragilidade causada pela doença desaparecia, ele como que ressuscitado e apresentava-se com um vigor extraordinário no palco!
Aproximei-me dele durante as celebrações do 5º. Centenário, quando montou o espetáculo lírico-musical
500 ANOS DE DESCOBERTAS LITERÁRIAS, com textos
dos grandes poetas brasileiros — Gonçalves Dias, Raul Bopp, Manuel Bandeira e músicas dos grandes compositores — Villa Lobos, Guerra Peixe, Noel Rosa, Milton Nascimento, Chico Buarque. Ele declamava poemas, cantava. O espetáculo apresentou-se em Brasília, e viajou por algumas cidades e chegou ao Chile.
Para minha surpresa, a cena final incluía músicas de Cazuza e um trecho de meu poema “Brasil Brasis”!
Quando eu o procurei depois do show — isso em 2000 —
ele disse conhecer meus textos desde os anos 70 do século 19, quando havia lido o meu romance “A Quadratura do Ó”.
Algum tempo depois, atrevi-me a pedir para que fizesse a apresentação do meu romance “Horizonte Cerrado” e escreveu um texto surpreendente, muito positivo sobre a obra. Sendo um especialista em Teoria Literária, doutor e orientador de teses na área, senti-me muito lisonjeado.
Viajamos com a nossa amiga Elga Perez Laborde em 2004 e com outros professores para o
Congresso de Humanidade, em Santiago do Chile. Lá ele participou de um recital de poesia brasileira, com Elgacantando músicas brasileiras e latino-americanas. Outra vez surpreendeu-me lendo, ao final, o mesmo trecho de “Brasil Brasis”, que foi muito aplaudido. Tão vivas, tão brilhante que cativava o público, mesmo quando não entendia todas as palavras do texto. Assim é um ator carismático.
Estive também no exame de qualificação e, na defesa final da tese da Elga, sob sua competente orientação.
Era discreto, pouco comunicativo, reservado. Falava pouco. Ainda assim chegávamos a conversar sobre muitos temas nas vezes em que nos reuníamos, em que sempre ouvia mais do que falava.
A cerimônia foi emocionante. Passaram um DVD com a imagem de sua última aparição pública — num evento no Centro Cultural Banco do Brasil, enquanto Elga leu a sua biografia e alguns de seus poemas, um deles da época em que estudou em New Orleans, nos Estados Unidos.
Eu fui convidado para ler o me poema “Tributo a Kavafis”, do livro “Poesia Ilustrada”, que foi dedicado a ele. Um poema que revelava muito de sua natureza humana, de seu refinado senso estético, pelas perífrases dos versos do grande poeta greco-egípcio. A platéia ouviu num silêncio de pura emoção, captando e identificando o sentido das palavras. Algumas pessoas ficaram muito emocionadas, conforme a confissão da professora Hilda Lontra, que acompanhou Danilo nos últimos dias de seu doloroso calvário.
Eu saí muito triste da cerimônia e fui dormir cedo, ensimesmado.
Mesmo sem ter sido um amigo íntimo de Danilo ele gostava de mim, admirava e respeitava sua capacidade intelectual e seu talento dramático. Uma perda irreparável. Perdi uma pessoa tão sensível de minhas poucas relações mais próximas. E vai ser muito difícil encontrar outro ator com tanta sensibilidade e disciplina.
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